
Faz um bom tempo que as questões de utilidade e inutilidade debatem-se em minha cabeça. Começou quando eu tinha treze anos e fui descobrindo, em minhas conversas com meus pais, que uma hora teria que decidir muitas coisas. O que fazer da vida, andar com quem, tornar-me o quê, e assim por diante.
A vida é útil? inútil? nada disso? ambos? alguma outra coisa? Em qualquer caso, se ela é alguma coisa, deveria ser mesmo isso? Conversei com muitos adultos desde então, e li um punhado de livros, e tive um bocado de aulas, freqüentei uns tantos grupos religiosos, céticos, mistos... e descobri a cada vez uma resposta excelente, que confirmava uma velha teoria, nem minha, nem de ninguém: a vida não é pronta, nem fechada. Se fica pronta, é só quando termina e, até lá, seus caminhos estão abertos. A vida acaba se ajeitando com o que fizermos dela.
Algumas pessoas vendem caminhos. Muitas compram. Há muitos caminhos dados de graça e gente que tenta seguir vários ao mesmo tempo. Uma coisa todos os caminhos parecem ter em comum: eles só são mais fáceis ou mais difíceis por comparações superficiais feitas de fora.
Depois que essas conclusões reviraram-se internamente em minha vida com a tão grande e tão comum exigência de utilidade de nosso tempo, acabei observando muitas outras coisas e decidindo alguns dos meus caminhos desde essas observações.
As coisas realmente importantes não se deixam medir pela utilidade. Estão acima dela, na minha opinião. Amor, para começar. Parece que é o que impede as mães de atirarem os filhos pela janela, ou os pais de consumarem um aborto retroativo, se a criação não teve os resultados esperados. Por que outro motivo insistiríamos tanto em tantos caminhos que podem nos desgastar, fazer mal, atrasar? É sempre possível amar bons caminhos, boas pessoas, boas coisas; todas as coisas amadas tendem a parecer boas, apesar de nem sempre serem. Pais, família, amigos, mulheres... depois os filhos, que podem passar a ocupar o primeiro lugar e recomeçar o ciclo. Muitos de nossos caminhos mais importantes são trilhados por causa — talvez por conseqüência — do amor.
A arte — música, literatura, filmes, e assim por diante — já parece começar a misturar amor e utilidade, porque é possível vender arte, produzir arte, viver de arte. Mas o que consideramos melhor no meio de todas essas coisas, costuma teimar e não se deixar medir pela utilidade. Amamos uma boa música porque ela existe, porque a ouvimos, sem que ela precise ser outra coisa que ela mesma. Ainda tenho muitos sonhos em trilhar um caminho que seja da arte, ou que a atravesse em algum ponto, porque considero a melhor alternativa para fazer o que preciso, o que quero, o que gosto. A exigência por utilidade, muito legítima por representar as necessidades inerentes à vida, acaba nos exigindo um tempo e uma dedicação que nem sempre se encaixam com aqueles que a arte exige.
O conhecimento parece misturar amor e utilidade ainda mais. Acabamos sendo convocados a prestar contas para o mundo, a produzir algo com o que sabemos fazer, mesmo quando não gostamos muito de exercer o que aprendemos. Acredito que essas coisas grandes, fundamentais e imprescindíveis — amor, arte, conhecimento — têm uma importância que ultrapassa serventia, utilidade, ou qualquer mera necessidade da vida que não seja o simples fato de viver. Conhecemos, criamos e amamos porque vivemos. Seria bem estranho — senão impossível — conceber a vida sem alguma dessas grandezas fundamentais. Nunca fui contrário a receber um retorno devido por algo produzido, ou a empenhar o conhecimento, a arte e o amor para intensificar e melhorar a vida. Reduzir tudo ao âmbito da mera utilidade é o que considero um grande problema.
O amor é um dos temas centrais de minha vida. A utilidade é aquilo que mais é exigido de mim desde os treze anos. Talvez por isso eu tenha escolhido trilhar um caminho repleto do conhecimento mais inútil — ou mais resistente à medida da utilidade — engendrado pela história humana. É um caminho que, do jeito como estou tentando percorrer, acaba atravessando a arte — e talvez retorne a ela. Quando isso acontecer, espero ter coisas melhores a dizer a respeito da vida, do amor e da arte. Por enquanto, ficam essas incompletas observações que refletem meus pensamentos, que, por sua vez, revolvem-se na tentativa de fazer com que eu viva das coisas que mais amo.